O mês de outubro foi recheado de manchetes no mundo de quedas nas vendas de automóveis e comerciais leves, os principais mercados do setor fecharam com resultados negativos históricos.

Além do agravamento da escassez dos semicondutores, o mercado global ficou em alerta para prováveis desabastecimentos de outros insumos, em função da crise energética na China.

As dificuldades na cadeia de abastecimento não serão resolvidas nesse exercício e com certeza vão impactar a produção no primeiro semestre de 2022.

O Reino Unido fechou o mês de outubro com seu pior resultado dos últimos trinta anos, anotando uma queda de -24,61%, o Japão que já tinha tido uma queda em setembro de -32,20%, tem um recuo no mês de -31,24%, às vendas no varejo na China registraram quedas de -14%, nos EUA a recuo foi de -22,52%, nenhum dos mercados analisados registrou crescimento das vendas, quando feita análise com o mesmo período mensal do ano anterior. Austrália que por 11 meses registrou crescimento, fechou outubro com seu pior resultado desde 2002.

Em 2020 com o impacto do covid-19 às vendas totais do setor atingiram a marca de 77.971.234 unidades ante 90.423.687 em 2019, anotando uma queda de -13,77%, foram 12,4 milhões de veículos vendidos a menos que o ano anterior.

No primeiro semestre de 2021 às vendas acumuladas Globais registravam um crescimento de 29% em relação a 2020, o agravamento da crise de escassez de semicondutores no terceiro trimestre, fez às vendas despencarem, a projeção atual do setor é fechar o ano com um crescimento abaixo de 7% e uma queda em torno de -8% em comparação com 2019.

Muitos países incluindo o Brasil, Japão, Alemanha, Reino Unido, França, Coreia do Sul e Espanha, podem fechar 2021 com quedas na vendas acumuladas em relação ao ano anterior, tudo vai depender do esforço em aumentar a produção nos próximos 2 últimos meses.

Um estudo divulgado pela Anfavea na última coletiva, estima que a crise dos semicondutores vai afetar a produção global em 2021 entre 10 milhões a 12 milhões de veículos, até o final do 1º semestre a estimativa era de um impacto negativo na produção entre 5 a 7 milhões de unidades.

Aqui vale um destaque ao aumento das vendas de veículos elétricos. No ano de 2020 o segmento de elétricos (BEV) registraram um crescimento de 41%, foram vendidos no ano da pandemia cerca de 3 milhões de unidades e a frota global ultrapassou 10 milhões de veículos (base IEA). Esse avanço continuou em 2021, os dados atuais estimam que as vendas vão superar a marca de 3,5 milhões de unidades vendidas, até setembro a China já havia licenciado 1.680 milhões de modelos tipo BEV (Battery Eletric Vehicle).

As vendas de veículos elétricos e híbridos no Brasil registraram um crescimento no acumulado de outubro de 73% ante 2019, foram vendidos nesse ano 1.805 veículos elétricos (BEV) e 25.135 híbridos (PHEV, HEV, HEV/FLEX), quando comparamos com outros mercados o número é irrisório, somente no mês de outubro foram vendidos no Reino Unido 16.155 veículos elétricos e no acumulado do ano 141.296 (BEV) e 486.968 unidades das versões hibridas.

O Brasil precisa urgente definir uma política para às novas energias, é necessário medidas regulatórias que direcionem as nossas indústrias, temos que lembrar que a eletrificação já é uma realidade global e que seu sucesso depende de muitas varáveis, como estrutura, pesquisa, incentivos fiscais, a falta de definições podem comprometer o processo de recuperação do setor nos próximos anos, mas isso é assunto para outro artigo.

ANÁLISE DE VENDAS DE AUTOS E LEVES NO BRASIL RESULTADO MENSAL.

As vendas de automóveis e comerciais leves totalizaram no mês de outubro 150.079 unidades, anotando um crescimento de 5,43% em comparação com o mês de setembro, quando comparamos com o ano anterior o setor anota uma queda de -26,88%, em relação a 2019 a queda é de -37,77%.

Conforme mencionamos no início do artigo, outubro foi marcado por fortes quedas nos principais mercados, mas devemos ter cautela com comparações, pois não existe uma caminho único para o processos de recuperação ou análises de riscos setoriais.

A escassez dos semicondutores já afetou a produção em mais de 300 mil unidades no Brasil, no mês de outubro Toyota, VW, Renault, Fiat, Jeep e GM tiveram suas produções parcialmente paralisadas.

As montadoras tem recorrido a PDVs para adequar a produção a nova realidade, desde o início do terceiro trimestre sete montadoras anunciaram programas de demissão voluntária, além das demissões temos hoje aproximadamente 7 mil funcionários diretos de montadoras em sistema de lay-off e o número tende a crescer durante o mês de novembro.

A Consultoria AlixPartners estima que o a escassez de semicondutores vai custar para indústria automobilística em torno de US$ 210 bilhões em receitas em 2021, a previsão em abril era de US$60 bilhões.

Alguns concessionários informaram estarem sentindo os reflexos negativos em suas lojas dos aumentos nas taxas de juros e preços dos veículos, mas o resultado do mês não foi impactado por essas variáveis, visto que o mês de outubro encerrou com uma disponibilidade de estoque de apenas 93,5 mil veículos, continuamos com uma demanda bem acima da oferta.

VENDAS ACUMULADAS DE AUTOMÓVEIS E COMERCIAIS LEVES

As vendas acumuladas no mês de outubro totalizaram 1.619.905 unidades, anotando um crescimento em relação ao ano anterior de 7,72% e uma queda em comparação com o ano de 2019 de 25,46%, o resultado ficou aquém da média global, mas segue a tendência de outros grandes mercados e são justificados pela queda de produção e oferta à partir do terceiro trimestre.

A Anfavea está projetando que o setor automóveis e comerciais leves deve encerrar o exercício com uma queda aproximadamente -2% (1.906 unidades) e se a indústria conseguir acelerar a produção no último bimestre um crescimento de 1%.

O Brasil fechou 2020 na 9ª colocação na produção mundial de auto veículos (automóveis, comerciais leves, caminhões e ônibus) foram produzidos 2.014.055, uma queda de -32% em comparação com 2019, a estimativa é que 2021 a produção cresça 3% em automóveis e leves e 58% em veículos pesados.

Todos os mercados estão sendo afetados pelo caos de abastecimento de insumos causado pela pandemia, mas precisamos ficar atentos para os próximos movimentos que o setor aponta, como eletrificação, veículos autônomos, ampliação de número de fábricas de semicondutores, redução de impostos, novas tecnologias, programas de incentivos, renovações de frotas para redução do CO2. As análises mais recentes indicam que as montadoras pretendem gastar nos próximos 10 anos mais de US$500 bilhões em investimentos e pesquisas em veículos elétricos, baterias e novas tecnologias, precisamos de políticas e diretrizes que possam atrair parte desses investimentos.

Temos uma indústria de transformação sólida e moderna, o Rota 2030 está propiciando excelentes investimentos, precisamos manter essa atratividade, ou podemos ter grandes dificuldades para uma recuperação plena do setor.

RANKING DE MARCAS VENDAS MENSAIS

A Fiat encerrou o mês de outubro mais uma vez na liderança, suas vendas mensais foram de 29.397 unidades, a redução na produção tem afetado o desempenho da marca italiana desde o fechamento do mês de agosto, seu volume de vendas apresentou uma queda de -23,30% em relação ao mesmo período de 2020 e um crescimento de 1,24% quando comparado com o mês anterior. Suas vendas no mês foram concentradas 67% no atacado, 40% de suas vendas foram realizadas no Estado de Minas Gerais, indicando que marca conseguiu entregar parcialmente um bom volume de veículos para as locadoras, seu modelo vendido em outubro foi o Fiat/Argo, no acumulado a marca lidera com um crescimento de 50,38% o que já garante a primeira posição em 2021.

A VW chegou a liderar as vendas em outubro mas perdeu folego à partir da segunda quinzena, conforme já relatamos a marca depois da GM é que mais foi afetada pela crise dos semicondutores, a montadora alemã programou em outubro a suspensão parcial de sua unidade de São Bernardo do Campo à partir de 1º de novembro 1.500 funcionários serão postos em lay-off, a fábrica vai operar com apenas um turno de produçãoco, sua unidade de São José dos Pinhais no Paraná suspendeu a produção em novembro por 10 dias, 2.100 trabalhadores dos dois turnos estão em férias coletivas desde o dia 09. Nesse cenário a segunda posição é uma vitória, a marca encerra o mês com um crescimento nas vendas mensais de 25,70% em relação ao mês anterior e uma queda de 24,17% em comparação com o mesmo período de 2020. Suas vendas acumuladas anotam uma queda de 1,07%.

 

Seu modelo mais vendido no mês foi o Gol, ocupando a décima posição, suas vendas foram concentradas 54% na modalidade varejo. A suspensão da produção dessas unidades vai comprometer o desempenho da marca no mês de novembro.

A terceira posição foi da GM, a marca ainda enfrenta dificuldades para reorganizar a produção, em outubro sua unidade de São Caetano do Sul ficou paralisada por treze dias em função da greve de seus trabalhadores, no dia 08 a marca americana comunicou a suspensão de um turno de sua unidade de São José dos Campos, 700 funcionários ficaram em lay-off, a suspensão poderá demorar até 5 meses. A retomada da produção do Onix já pode ser percebida pelo bom desempenho da marca no primeiro decêndio de novembro, lá vai um spoiler, a marca está liderando as vendas de novembro e o Onix retorna a 1ª posição na parcial do mês.

O modelo mais vendido da marca em outubro foi o Onix, ficando com a nova posição. Suas vendas mensais foram concentradas 59% na modalidade varejo. No acumulado a marca amarga uma queda de 30% em comparação com 2020 e incríveis -53,73% em comparação com 2019, um ano muito difícil para a GM. Destacamos que a marca anunciou no início do ano que pretende investir mais de 10 bilhões de reais no Brasil durante os próximos 5 anos, até a presente data não foi comunicado nenhuma mudança nessa estratégia, o que demonstra a importância do mercado brasileiro para o desempenho global da montadora.

A quarta posição no mês e no acumulado é dos coreanos, a Hyundai navegou em mares tranquilos em 2021, com poucas interrupções na produção e com uma estabilidade em suas vendas, o lançamento da nova geração do Creta deve pôr um pouco de pimenta no mercado de SUV, dando outro spoiler, na parcial de novembro o modelo está na segunda posição. Assim como todas as marcas suas vendas perderam o bom ritmo à partir de agosto, mesmo assim a gordura do primeiro semestre propicia um crescimento no acumulado de 19%, suas vendas no mês foram concentradas 92% no varejo.

Destaque positivo no mês para quinta posição da Jeep, a marca anotou um crescimento de 16% em comparação com o mês de setembro, no acumulado é marca segue na 6ª posição, anotando um crescimento de 51,28%. O foco da Jeep é o atacado, 77% de suas vendas foram concentradas nessa modalidade.

A Toyota também tem enfrentado dificuldades para adequar sua produção, além das paralisações pela falta dos semicondutores a marca teve que suspender em outubro a produção do Corolla pela falta de itens do freio. A marca japonesa é a única a produzir no Brasil  um modelo híbrido/flex, o Corolla e o Corolla Cross representam 53% das vendas de veículos de novas energias no Brasil, foram vendidos nos 10 meses 14.451 unidades (somados os dois modelos). No acumulado a marca japonesa anota uma crescimento de 30%.

A Renault em janeiro comunicou ao mercado que estaria mudando sua estratégia global das marcas, no Brasil o objetivo seria focar em modelos de maior rentabilidade, mesmo que isso compromete-se sua participação, a marca francesa assim como GM e VW e Cia, vem enfrentado constantes interrupções na sua produção, estes entraves com certeza estão atrapalhando seus novos objetivos, pois ela perdeu volume, perdeu participação e continua concentrando suas vendas no seu modelo mais barato, o KWID representa 41% das vendas da francesa. A marca está na 7ª posição nas vendas acumuladas e suas vendas no mês anotaram um crescimento de 32%, em outubro a montadora abriu PDV com o objetivo de desligar 550 funcionários, em torno de 500 funcionários aderiram ao programa.

A Honda assim como todas as marcas de volume teve problemas com sua produção, aparentemente ela caminha dentro de seus objetivos e deve encerrar o ano com uma participação muito próxima da realizada em 2020, seu volume de vendas tende a ser menor do que 2020.

No gráfico de vendas acumuladas é possível analisar o desempenho das marcas em relação ao ano de 2020 e ao período antes da pandemia.

Entre as marcas de volume GM, Renault, Honda e Ford lideram as perdas em comparação com 2019.

Nas marcas Premium o destaque positivo permanece com BMW, VOLVO e PORSCHE, elas também foram o destaque de 2020, a produção local da BMW estimada em março era de 10.000 unidades, sendo um diferencial para o excelente desempenho da marca no Brasil.

Nas marcas de volume o destaque com certeza fica com o excelente desempenho da Fiat e Jeep, ambas anotam um crescimento superior a 50%.

No segundo escalão vamos nos despedindo na Troller que infelizmente encerrou suas operações, mas para 2022 vamos ter a chegada da Chinesa Great Wall, ainda temos poucas informações, mas dizem que os objetivos são grandes.

Nos próximos dois meses vamos ver poucas mudanças no ranking, a liderança já está 100% garantida para a Fiat.

As vendas acumuladas estão anotando um crescimento de 7,72%, mas não existe a menor possibilidade desse percentual ser mantido, a projeção é de queda entre 1% até 3%.

A liderança nas vendas do mês e no acumulado ficou com o Estado de Minas Gerais, sempre destacando que o volume naquela região é turbinado pelos licenciamentos das locadoras, o veículo mais vendido para os mineiros em outubro foi o Fiat/Argo a marca italiana lidera com folga às vendas no Estado. Foram licenciados em outubro 37.702 unidades, anotando um crescimento de 35,54%, podemos afirmar que o crescimento nas vendas do mês foram ancorados no bom volume de emplacamentos para as locadoras. No acumulado o Estado é líder pela primeira vez no ano, com 349.903 unidades licenciadas, registrando um crescimento ante 2020 de 17,24%.

O Estado de São Paulo teve um péssimo desempenho no mês de outubro, seus licenciamentos no mês foram de 30.623 veículos, ficando 19% abaixo do volume mineiro, suas vendas acumuladas totalizam 349.454 veículos e registrando uma queda de 3,74%. O veículo mais vendido no Estado foi o VW/T-Cross. O erro de aumentar impostos em 2021 provocou um evasão de emplacamentos em São Paulo, os veículos novos tiveram suas tarifas aumentadas de 12% em janeiro para 14,50% à partir de abril. Entre os 10 Estados que mais vendem no Brasil, São Paulo anota a maior queda.

O Paraná fecha o trio do mês, suas vendas anotaram um crescimento em relação ao mês de setembro de 15,48%, no acumulado seus licenciamentos cresceram 10,17%. O modelo preferido dos paranaenses no mês de outubro foi o VW/T-Cross.

RANKING DE VENDAS POR MODALIDADE VAREJO E ATACADO

Em outubro as vendas no varejo representaram 57,77% e o atacado (vendas diretas) 42,23%, o volume de vendas acumulado no varejo é de 935.819 unidades, registrando um crescimento em comparação com 2020 de 10,77%, as vendas diretas totalizam 684.086 veículos e crescem 3,81%.

O setor de locação segundo a Anfavea encerrou outubro com 326 mil veículos licenciados (segundo dados da Anfavea), a projeção para o fechamento do ano serão de compras atendidas de aproximadamente de 370 mil veículos, ficando uma demanda reprimida de mais de 250 mil veículos.

A Fiat lidera as vendas no varejo e no atacado, em ambas as modalidades a marca italiana anota um crescimento bem acima da média do setor, suas vendas no varejo concentram 39,68% com um Market Share de 15,47%, no atacado a marca é líder com ampla vantagem concentrando 60,32% de suas vendas nessa modalidade e com um Market Share de 32,18%.

Conforme sempre mencionamos, não existe uma estratégia certa ou errada, cada montadora estabelece quais serão seus objetivos de participação por modalidade, o momento é muito favorável para as vendas no atacado e com a vantagem que não ter mais a necessidade de destruir as margens para atender as locadoras, estratégia péssima que foi adotada por muitas marcas até o final de 2019.

A Peugeot chama a atenção em nossa análise pelo crescimento de 190% de suas vendas na modalidade atacado, 71,57% das vendas da marca estão concentradas em vendas diretas, o seu modelo Peugeot/208 que ocupou a 24ª posição no ranking mensal, foi o 10º mais vendido em Minas Gerais, o que indica concentração em entregas para as locadoras.

Ranking de mensal e acumulado de modelos de automóveis e comerciais leves.

Nesse mês fizemos uma pequena mudança em nossa análise e passamos a demonstrar além do ranking mensal, os volumes por modelos de vendas para as modalidade varejo e atacado.

Conforme sempre alertamos, mão existe uma estratégia certa ou erada, cada montadora sabe aonde aperta o seu calo e quais são as oportunidades ela deve aproveitar.

É estranho quando vemos veículos de baixo volume de vendas concentrando seus esforços em atender as locadoras, pois teoricamente o varejo está com uma grande demanda reprimida, mas são estratégias e o futuro vai dizer se estão certas ou erradas, a nova informação abre uma ampla possibilidade para outras análises.

O Fiat/Argo encerrou o mês na liderança, suas vendas foram concentradas em vendas para o atacado, mas o modelo teve uma excelente participação no varejo, no acumulado ele ultrapassou o HB20 ficando com a segunda posição.

Quatro modelos SUV estão entre os mais vendidos no mês, a participação desse sub segmento representou 48% das vendas de outubro de automóveis, mais que o dobro dos modelos hatch.

A segunda posição foi da SUV Jeep/Renegade, o modelo ocupa a 4ª posição entre os mais vendidos no acumulado do ano.

Fechando o trio do mês temos Fiat/Strada, nas vendas acumuladas do ano o sub segmento de comerciais leves registra um crescimento de 32%, o modelo da Fiat é disparado o mais vendido no acumulado.

O HB20 que está com a segunda posição nas vendas acumuladas, ficou apenas com sexta posição no acumulado.

[Fonte: MN]