No dia 15 de junho, o Banco Central promoveu uma nova alta na taxa básica de juros, a Selic. A nova alta vai ter pouco impacto na baixa de crédito ao consumidor se vista de forma isolada. Por outro lado, as 11 altas seguidas da taxa básica de juros já fazem o consumidor pagar 2 consoles PlayStation 5 a mais em um financiamento de carro usado de R$ 40 mil.

Taxa de financiamento saiu de 1,53% ao mês no ano passado para 1,98% ao mês em abril deste ano. Valorização dos seminovos também atrapalha

Uma diferença de R$ 5 mil em apenas um ano: financiar carro seminovo dito popular, avaliado em cerca de R$ 70 mil, está cada vez mais difícil no Brasil, sobretudo em um cenário no qual os modelos mais vendidos do Brasil valorizaram cerca de outros R$ 5 mil entre dezembro e maio deste ano.

Ou seja: quem sonha em andar motorizado precisa conviver com a valorização dos seminovos e com uma taxa de juros ao mês que saltou de 1,53% em abril do ano passado para 1,98% ao mês no mesmo período deste ano, conforme dados da Bolsa de Valores.

“O cliente está procurando aquele semi-novo próximo do zero, aquele carro pouco rodado. As taxas de juros subiram, mas o cliente não está deixando de comprar por conta disso. Ele está olhando se a parcela cabe no bolso. Muitas vezes, ele em vez de financiar em 24 vezes, financia em 36”, diz Flávio Maia, diretor da Associação dos Revendedores de Veículos no Estado de Minas Gerais (Assovemg) e proprietário da concessionária AutoMaia Veículos (foto), situada na Avenida Amazonas, 1.518, no Bairro Barro Preto, em BH.

Dados da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave) mostram que o Hyundai HB20 é o carro mais vendido do Brasil no momento. Considerando o modelo 2020 do veículo, a Tabela Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas) mostra que o modelo deste ano em específico está avaliado em R$ 71 mil.

Dessa maneira, um financiamento de 36 meses do hatch, com uma entrada de R$ 14,2 mil (20% do valor total), sai R$ 5.671,67 mais caro atualmente do que há um ano.

Apesar disso, Flávio Maia, diretor da Assovemg, garante que o consumidor tem feito adequações para comprar seu veículo, ainda que em condições piores.

Segundo ele, a dificuldade para solicitar carro por aplicativo, diante da evasão de motoristas do setor por conta do preço do combustível, e a situação do transporte coletivo têm motivado a procura.

“A gente tem observado muito fortemente nas lojas que o cliente dono de um SUV, um carro 2.0, um carro mais potente que bebe mais (consome mais combustível), está procurando um veículo mais popular, em função do aumento do preço da gasolina. Outro comportamento que a gente observa é o do cliente que tem um carro mais top, que tem uma parte financiada, tentando vender esse carro para fugir do financiamento. Daí, ele pega um carro um pouco mais em conta”, afirma Maia.

Os valores dos semi-novos também chamam a atenção. Conforme a Fenabrave, todos os cinco carros mais vendidos no Brasil neste momento estão além da marca dos R$ 60 mil – quando se considera o modelo ano 2020, considerado semi-novo.

Além do HB20, completam a lista o Fiat Argo, Jeep Renegade, Chevrolet Onix e Jeep Compass. Mais caro desse ranking, esse último SUV ano 2020 custava R$ 152 mil em dezembro. Hoje, a cotação é de R$ 156 mil – um bem totalmente inacessível para a maior parcela da população.

A Selic saltou de 3% em maio do ano passado para 13,25% ao ano na última atualização do Banco Central.

Alta da taxa de juros, alta no preço do combustível, super valorização do veículo usado e o envelhecimento do estoque são os principais desafios para o revendedor de carros multimarcas.